terça-feira, setembro 9

Festividades de carros de boi*



Quando se fala em festividades, principalmente aquelas que envolvem a cultura de um povo, não se deve esquecer que elas são meios originários e permanentes do nosso progresso.
Nas festas de carros de boi,os participantes se encontram e alcançam níveis surpreendentes de cooperação, socialização, solidariedade, amizade, respeito ao próximo, criação de vínculos permanentes e dedicação à causa maior, que é a preservação de uma cultura que quase foi extinta.
Sob esse ponto de vista, arrisco-me a afirmar que essas festividades trazem à tona vários pontos positivos e propagam o ideal de seu povo. Nelas, tem-se boa comida, prazeres e diversões variadas; abolição temporária da hierarquia e do status social, ou seja, nelas se festeja o coletivo, a tradição e não o individualismo e o artificialismo da sociedade contemporânea.
Portanto, quando se fala em festejar não se pode esquecer que nenhum outro ser age conforme os seres humanos.
A festa de carros de boi é lúdica e provoca várias reações singulares, tanto nos carreiros, candeeiros, comitivas, seguidores quanto nos espectadores, que comparecem ativamente. Consequentemente, muitos se perguntam, qual é o segredo para essas festas crescerem tanto, ano a ano, e arrastarem uma verdadeira legião de seguidores.
São muitas as possíveis respostas: respeito, amizade, camaradagem, cooperação, comprometimento, cultura, diversão, honestidade, hospitalidade, humildade, originalidade, prudência, reinvenção, singularidade, socialização, tradição etc... Enfim, com a realização de festejos com os carros de boi, mantém-se as tradições e preserva-se a identidade de um povo.
Muitos pensavam que, com o uso de tratores, de caminhões, de picapes, de outros meios de transportes modernos e da crescente evolução da tecnologia, o saudoso carro de boi e a sua cantiga peculiar iriam desaparecer, e só os encontraríamos em museus, filmes antigos, telas de pinturas ou esquecidos em fazendas antigas.
Porém, em Vazante e em muitas outras cidades ocorreu uma reinvenção para o uso dos carros de boi, saiu do labutar para o festejar (com perdão do trocadilho).
Há alguns anos, fazendeiros estão voltando a usar seus carros de boi, adquirindo e encomendando carros novos, com o fim de utilizá-los em festas, mutirões, desfiles, carreteadas, romarias, exposições e encontros.
Quando se aproxima a data de alguma das festas, a população e os carreiros começam a se preparar para a festividade, a cidade e os arredores entram em efervescência. Enquanto os carreiros iniciam os trabalhos com as suas boiadas, organizam suas tralhas e mantimentos, alguns dos participantes organizam os seus calendários de trabalhos e preparam as suas montarias para seguirem os carros de boi.
Isso mesmo: seguirem.
O aumento gradual, ano a ano, do número de participantes e visitantes, vindos de lugares incogitáveis, de outros estados e países bem distantes de onde as festas de carros de boiacontecem, é o principal termômetro para medir o sucesso da festa como evento comercial. Mas o objetivo primordial do evento, como se verá ao longo desta história, era o de perpetuar a memória da importância do carro de boi para um grupo de mineiros muito agradecidos pelas benfeitorias realizadas com a ajuda dos carros. Esse objetivo se consagrou. Gosto da ideia de pensar que, com este livro, também eu porei o meu tijolo na construção do grande memorial.
Na época das festividades, seja na véspera, durante ou depois, ao percorrer as estradas rurais da região, trabalhando em minha pesquisa, encontrei frequentemente carreiros, candeeiros e muitos entusiastas se deslocando a pé, no lombo de cavalos, de muares, em burros de carga ou em lombos de bois. Todos tendo de seguir no mesmo ritmo da boiada carreira, pois é ela quem determina a velocidade da marcha.
São muitos os carreiros que levam os familiares e amigos para vivenciarem o que os seus antepassados faziam para transportar seus mantimentos. É mesmo uma aventura para se viver e sobreviver em família. Mas fique bastante claro: gente fraca dos pulmões não pode. Tem poeira que dá pra entupir muitos oásis no Saara. Não custa advertir.
Essa paixão faz com que muitos percorram longas distâncias para chegar ao local da festa. São várias as comitivas que se deslocam, determinadas.  Muitos deles saem de cidades do Estado de Goiás e de municípios mineiros como Coromandel, João Pinheiro, Patos de Minas, Lagamar, Presidente Olegário e outros.
É o caso da Comitiva Marcha Lenta, são da região do Alto Paranaíba, e já participaram algumas vezes das festividades. Em todas elas fazem o trajeto inteiro à moda antiga.


As comitivas se deslocam carregando os mantimentos necessários à viagem de vários dias. Em suas provisões tem carne salgada e carne na banha, linguiça, arroz, feijão, farofa, rapadura e farinha de mandioca para manterem a tradição, além da cachaça para alegrar a viagem e esquentar o frio durante a noite, que não é pouco.



*Trecho do livro: FESTAS DE CARROS DE BOI, do escritor Rogério Corrêa

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Boa leitura,

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